Nessa categoria, vou colocar os trabalhos da faculdade que não foram publicados. Nessa matéria de Cidades, o tema era ciclovias e a mídia era revista. Tirei 1,5 (valia 2,0), uma das notas mais altas da classe. Leia o texto a seguir.

Sobre duas rodas

Apesar do sistema cicloviário precário, grupos de ciclistas dominam a noite de São Paulo

Um grupo de vários ciclistas percorre a Avenida Paulista, contrastando com o trânsito carregado. A cena é atípica. A circulação de carros na cidade é tamanha que só nos últimos meses o recorde de trânsito foi quebrado diversas vezes. São 6 milhões de veículos, com médias de congestionamento de 180 km. As viagens dentro da cidade são divididas assim: um terço da população usa transporte coletivo, um terço usa transporte individual (táxi, carros e motos particulares) e outro terço anda a pé ou de bicicleta – é a categoria dos veículos não-motorizados. Traduzindo em números: a cidade de São Paulo tem 20 milhões de habitantes, e a última Pesquisa Origem/Destino realizada pelo Metrô em 2002 aponta que apenas 300 mil deles usam a bicicleta diariamente, seja como meio de transporte ou como lazer. Enquanto o transporte coletivo é administrado pela SPTrans, CPTM, EMTU e pelo Metrô, e o transporte individual conta com a fiscalização da CET, os ciclistas não têm nenhum órgão que apóie o uso da bicicleta como meio de transporte. Na maioria das vezes, ela é usada como atividade de lazer em parques. “Há várias razões para que as pessoas não usem a bicicleta como meio de transporte, a principal das quais, é cultural: a bicicleta foi estigmatizada, em anos mais recentes, como objeto de lazer. Circulação ‘a sério’ é coisa de veículo motorizado”. Quem dá a informação é Laura Ceneviva, Coordenadora do Projeto Pró-Ciclista, da Prefeitura de São Paulo. Mas existem outros motivos pelos quais o paulistano prefere deixar a magrela na garagem.

Ao redor do mundo Para começar, existem pouquíssimas ciclovias em São Paulo, e elas não são interligadas. São apenas 40 km de malha cicloviária. A maior é a do Parque do Carmo, com 8,2 km. Ainda neste ano será inaugurada a ciclovia da Avenida Radial Leste, entre as estações de Metrô Itaquera e Tatuapé, que terá 12 km. Outros projetos estão em andamento na Avenida Inajar de Souza, Parelheiros, Ermelino Matarazzo, Butantã, Marginal Pinheiros, Campo Limpo, entre outros. Os bicicletários são localizados em terminais de transporte coletivo de ônibus, trem e metrô. Dessa forma, é possível utilizar a bicicleta como meio complementar, já que ela tem alcance médio de 6 km. Mas ainda é pouco. Em Paris foi implantado o Vélib, sistema público que opera 24 horas por dia, sete dias por semana e que disponibiliza bikes ao lado de estações de ônibus e de metrô. Pagando 1 euro é possível usar a bicicleta por meia hora. Na Alemanha, são mais de 4 mil quilômetros de vias exclusivas para bicicletas e cerca de 74 milhões de bikes para quase 83 milhões de habitantes. Em Amsterdã, a capital mundial das bicicletas, 40% dos deslocamentos são feitos através delas, em 400 km de ciclovias. Na Bogotá colombiana, as “ciclorutas” são as ciclovias de 300 km de extensão são equipadas com bicicletários. Há exemplos de sucesso até mesmo dentro do Brasil: no Rio de Janeiro e em Curitiba há pelo menos 150 km de ciclovias, e em Porto Alegre há até ônibus equipados com suporte para transportar bicicletas na parte dianteira.

A criação da Lei nº 14.266, que deve implementar o Sistema Cicloviário do Município de São Paulo através da Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura, mostra que o assunto já toma proporções grandes o suficientes para serem tratadas com seriedade pelo governo. Mas ainda há muitas barreiras a serem quebradas. A construção de ciclovias e bicicletários é apenas a primeira fase do projeto. É importante entender que os motoristas de carros, em sua maioria, vêem os usuários de veículos de duas rodas como obstáculos. A lei está do lado deles, pois eles têm preferência nas vias públicas onde não há ciclovias. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, artigo 58: “Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.” Laura, do Projeto Pró-Ciclista, acredita que, com a construção de ciclovias, as pessoas tenderão a andar mais de bicicleta, incorporando-se à cultura de trânsito. Dessa forma, a convivência entre eles será melhorada naturalmente.

Soluções alternativas Diante do descaso em não adotar políticas de melhoria do trânsito caótico urbano, dois grupos se destacam na tentativa de incentivarem o uso de transporte alternativo. Os Night Bikers estão nas ruas desde os anos 80 e percorrem 35 km a cada encontro semanal, sempre em bairros sossegados como Jardins, Aclimação, Itaim, entre outros. A idéia surgiu de um grupo de ciclistas noturnos liderados por Renata Falzoni. O capacete é sempre obrigatório e deve-se respeitar o guia-líder. Para ela, o primeiro passo para começar a pedalar é “tirar a bicicleta da garagem, dar um trato e deixá-la na sala. Toda a vez que for sair de casa, pergunte-se se não seria o caso de ir de bicicleta em vez de carro”. Outra iniciativa de destaque é o Passeio de Massa Crítica. O nome é uma referência a várias teorias sociais que sugerem que uma revolução pode ser alcançada depois que uma certa massa crítica de apoio popular é demonstrada. Ele ocorre em diversas cidades ao redor do mundo e em São Paulo ganhou o nome de Bicicletada. “Um dos objetivos é pedalar junto com os carros no momento de maior trânsito, para mostrar que existe uma opção ao carro como meio de transporte”, relata André Pasqualini, um dos participantes do movimento. São em média 150 pessoas em veículos não-motorizados, incluindo bicicleta, skate ou a pé. O trajeto é definido na hora. Para participar, a única obrigatoriedade é comparecer ao ponto de encontro. O atrativo é que pessoas sem experiência podem participar, já que eles percorrem em média 20 km. O ritmo do passeio é lento, portanto é comum encontrar crianças e mulheres. Agora, só falta tirar a bike da garagem e começar a pedalar.

Dicas para quem quer adquirir uma bicicleta ou tirar a magrela da garagem:

•    Bicicleta ideal
De pé, coloque a bike entre as suas pernas. A distância do tubo superior da bike deve ficar a quatro dedos do seu cavalo. Ao sentar na bike, seus braços devem ficar semi-flexionados.

•    Benefícios para a saúde
1.    Emagrece – Uma mulher de 60 kg perde cerca de 400 calorias por hora
2.    Aumenta o fôlego – Os músculos pedem por oxigênio, que é o catalisador que transforma a glicose em energia. Dessa forma os pulmões são obrigados a trabalhar mais rápido para garantir o suprimento dessa substância e a expulsão do gás carbônico.
3.    Deixa as coxas firmes – A musculatura dessa região é bem desenvolvida durante a pedalada. Como andar de bike queima o excesso de gordura, a definição das coxas e das panturrilhas fica evidente.
4.    Alivia o stress – Como qualquer outro exercício, pedalar estimula a produção de endorfina, que dá a sensação de bem-estar.
5.    Previne doenças – Os benefícios de praticar um esporte regularmente são muitos. Quem pedala mantém o organismo e fica resistente a várias doenças, como osteoporose e problemas cardíacos.

•    Night Bikers
Os encontros acontecem todas as terças-feiras, às 20h:45, na Rua Pacheco de Miranda, no Itaim. O uso do capacete é obrigatório. Site: www.nightbikers.com

•    Bicicletada

Toda última sexta-feira do mês. Concentração às 18:00, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista. Saída para pedalada às 20:00. Só é necessário comparecer. Site: www.bicicletada.org