Matéria: O Japão é aqui
Essa foi minha segunda reportagem para a faculdade, também para revista, porém a editoria dessa vez era Artes e Espetáculos. Decidi falar sobre os 100 anos da Imigração Japonesa, mais especificamente da exposição Tokiogaqui, que aconteceu no Sesc Paulista. O resultado você confere abaixo.
O Japão é aqui
Exposição comemora o Centenário da Imigração Japonesa
“A exposição Tokiogaqui é uma mostra de sensações”. Quem afirma é a orientadora de público Tábata Martins. A palavra é um trocadilho. Em japonês, “ga” significa “imagem”. É o que pretende a exposição: mostrar através de imagens que Tóquio, a capital do Japão, está mais presente aqui no Brasil do que se pensa. No prédio alto do Sesc Paulista, a mostra se expandia por dois andares. Até os elevadores estavam decorados com temática nipônica. Diversos shows, peças e performances também celebraram o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Em 18 de Junho de 1908, o barco Kasato Maru chegou ao Porto de Santos, trazendo 165 famílias que vinham trabalhar nas plantações de café do estado de São Paulo. Esse acontecimento mudou não apenas a vida desses japoneses, mas também a nossa vida, já que as culturas dos dois povos foram enriquecidas. “A idéia é mostrar duas faces do Japão pós-guerra”, explica Ricardo Muniz Fernandes, curador da exposição. No 9º andar, uma homenagem a Kazuo Ohno, dançarino de butô, hoje com 101 anos de idade, coincidindo com o centenário. No 5º andar, tudo o que há de mais pop no Japão do século XXI, como animê e mangá. Essas duas faces mostram que o Japão é mesmo uma terra de contrastes, além provar que o país tem mais coisas em comum com nossa cultura do que imaginamos. A cantora japonesa Tigarah confirmou essa constatação. Fechando o ciclo de apresentações, ela animou todos com sua música, com batidas de funk carioca e letras em japonês. A exposição já acabou, mas não se desespere: confira no box dicas de mais exposições que estão rolando em São Paulo sobre o Centenário.
DANÇA DAS EXPRESSÕES SOMBRIAS “Os curadores têm uma admiração especial por ele”, relata Isadora Greiner, monitora da exposição. Ela se refere ao dançarino Kazuo Ohno. Ao descer do elevador, percebia-se o clima tenso. Luz baixa, chão preto e irregular. Silêncio. Um telão projetava vídeos da carreira do artista. Um pequeno espaço representava o quarto de Kazuo. “É um paralelo entre o interior da casa e da alma do bailarino”, diz Ricardo Muniz. Em meio a vestidos e chapéus, viam-se na parede e no chão frases de sua autoria e pôsteres dos seus espetáculos. O butô foi criado por Tatsumi Hijikata, e significa “Dança das Expressões Sombrias”. Kazuo começou a dançar em 1949, e fez sucesso com espetáculos como Admiring La Argentina, dedicado à espanhola Antonia Mercé, dançarina de flamenco. Ele ganhou o Dance Critic’s Circle Award por essa performance. Outros espetáculos seus são My Mother, Dead Sea e Water Lilies. Seu estilo de dançar era único. Quando viajou pelo mundo, reuniu diversos interessados em aprender a arte do butô. Em 1980, apresentou-se na França, causando grande impacto. Quando perdeu a habilidade para dançar em 2001, devido à idade avançada, criou um tipo diferente de arte performática, movendo apenas as mãos. Hoje ele se encontra sob cuidados médicos em sua casa, no Japão. Uma de suas frases traduz a dança do butô: “Os homens vivem com a consciência de que morrerão, no entanto esperam ter uma vida eterna. A eternidade é um dos argumentos principais do butô. Ela cabe no instante, e esta consciência serve para ultrapassar as barreiras do corpo. A morte é inevitável, não podemos viver sem olhá-la. Não podemos fechar os olhos, mas podemos torná-la alegre.
ESQUINAS DE TÓQUIO Quatro andares abaixo, a música era alta, com batidas dançantes e fortes, e quando o elevador abria as portas, os olhos ofuscam com a quantidade de rosa nas paredes. E azul. E amarelo. E todas as cores possíveis. Na entrada, o cartaz dizia: “São Paulo e Tóquio se confundem”. Nada mais verdadeiro. Jovens divertiam-se nas máquinas de pump. É como se fosse um videogame, mas ao invés de jogar, deve-se pisar na setas que aparecem na tela, criando passos de dança. Um concurso de animekê (um karaokê só com músicas de animê, como são chamados os desenhos animados japoneses) fazia a galera torcer e cantar junto. O que mais se via por lá eram os otakus. No Japão, essa palavra significa “fanático”. Aqui ela é usada para identificar as pessoas que são loucas pela cultura japonesa pop, como mangá, animê, J-Rock e J-Pop (estilos musicais japoneses). “Quero fazer faculdade de moda no Japão, porque a moda daqui não tem graça. Convivo com a cultura japonesa desde pequena. Sempre adorei Digimon e adoro cantar em animeke, além de dançar na pump”, conta animada Mayara Honey, estudante de 16 anos. O tapa-tapa também fez sucesso. Na tela que ia do chão ao teto, um vídeo mostrava garotas ensinando passos de dança, mexendo mais as mãos do que os pés. Do lado de fora, as pessoas imitavam o vídeo, montando uma coreografia tipicamente nipônica. Videogames foram estrategicamente colocados para entreter as crianças, que podiam escolher entre o Playstation ou Nintendo Wii, e uma estante estava cheia de mangás, os quadrinhos japoneses lidos de trás para frente, para quem quisesse ler.
JAPA GIRL O último dia da mostra ainda guardava uma surpresa. Às 8 e meia da noite, a cantora japonesa Tigarah animou pessoas de todas as idades (desde crianças a senhores quarentões) com sua música, que mistura elementos eletrônicos com funk carioca. As letras são em japonês. Apesar de ser formada em Ciências Políticas na Keio University, em Tóquio, ela preferiu fazer carreira na música. Através de amigos brasileiros que moravam no Japão, conheceu o funk e se apaixonou. Visitou nossa terrinha algumas vezes, e junto com Mr. D, um DJ suíço, criaram algumas faixas e o resto é história. Suas letras demonstram personalidade forte e sensualidade, como no trecho da canção Japanese Queen: “Sou uma rainha japonesa/talvez você consiga ficar comigo/se tudo der certo/você vai ver do que eu sou capaz”. A jovem contagiou todos com sua simpatia. Em dado momento do show, a funkeira carioca Deize Tigrona subiu no palco e improvisou algumas músicas com a musa nipônica. A galera vibrou, prova de que a distância entre as nossas culturas é mínima, para não dizer quase imperceptível. O fato de uma cantora japonesa cantar o Créu e ser aplaudida por jovens da classe média (que torcem o nariz para o estilo) mostra que o jovem está mais do que preparado para absorver qualquer tipo de cultura. “A música dela é universal. Não é só funk, é uma electronic music global. A música boa ultrapassa a barreira do idioma”, explica João Elias de Brito, publicitário e fã incondicional. É a prova de que a fusão de culturas está cada vez mais efervescente. Bom para todos nós.
TEM MAIS CULTURA JAPONESA EM SAMPA
Se você perdeu a exposição Tokiogaqui, não desanime. A cidade abriga outras mostras sobre a terra do sol nascente. Confira:
Quando vidas se tornam forma: um diálogo com o futuro – Brasil-Japão
O MAM abriga essa exposição com obras de 38 artistas (21 brasileiros e 18 japoneses), nas áreas de arte, arquitetura, moda e design. Tem Hélio Oiticica, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, entre outros. Destaque para A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi.
Serviço: MAM – Parque do Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3 – São Paulo. Até 22 de junho. De 3ª a domingo, das 10h às 18h. Preço: R$ 5,50.
O Florescer das Cores: A Arte do período Edo
Essa exposição ficará na Pinacoteca até 22 de junho e traz peças de museus japoneses. São obras do Perído Edo (1603- 1867), quando o xogunato Tokugawa reinava, lavando ao isolamento quase completo do Japão em relação ao resto do mundo.
Serviço: Pinacoteca do Estado de São Paulo. Praça da Luz, 2 – Luz – São Paulo. Até 22 de junho. De 3ª a domingo, das 10h às 18h. Preço: R$ 4 e R$ 2 (meia). Grátis aos sábados.
Honkyoku
Todos os últimos sábados do mês, até novembro, Danilo Tomic apresenta a série completa “Honkyoku”. São 36 peças clássicas para flauta de bambu, o shakuhachi, que surgiu nos templos da seita zen-budista Fuke. O “Honkyoku” nasceu da iniciativa de um monge que, há cerca de 500 anos, percorreu o Japão coletando as melodias ensinadas nos templos.
Serviço: Pavilhão Japonês – Parque Ibirapuera (perto do portão 10). Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, – São Paulo. Até 29 de novembro, às 16h. Preço: R$ 3 (adulto) e R$ 2 (crianças até 12 anos e estudantes).
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