Duas garotas revelam seus delírios de consumo

A história se repete. Chega a nova estação e as lojas ficam recheadas de modelitos divinos que você PRECISA ter. Afinal, as roupas do seu armário já são da estação passada e as suas amigas vão estar poderosas. E você precisa estar também, é claro! Mas as compras têm um preço às vezes alto demais, e que dinheiro nenhum vai poder compensar depois.

A psicóloga Celina, de 23 anos, pode ser considerada uma compradora compulsiva. Sua coleção de mais de 50 bolsas é de dar inveja. Ela até recebe a revista da Daslu em casa. “Mas só compro lá quando tem liquidação, porque é muito caro”, garante. Na loja, ela comprou uma jaqueta que custou R$ 470 – estava na promoção; antes custava R$ 940. Os itens preferidos dela são bolsas e sapatos, porque se ela engordar ou emagrecer, não perde o produto. O item mais caro que já comprou? Uma joia de R$ 2.500.

“Me considero uma consumista responsável e tento não ser fútil. Controlo meus gastos em uma planilha do Excel, e sou eu quem pago o IPVA do meu carro. Então eu sei que não posso me descontrolar”, diz ela, que acredita que o consumismo esteja ligado à carência. “Percebo que compro mais quando estou triste. Quando estou bem comigo mesma, prefiro guardar o dinheiro para viagens”.

A designer Mariana, de 23 anos, segue quase o mesmo rumo. Ela gosta tanto de gastar que o nome do seu blog é Shopaholic [em inglês, viciada em compras]. Ela tirou a palavra do livro Confessions of a Shopaholic, que no Brasil recebeu o nome de Delírios de Consumo de Becky Bloom. O livro foi adaptado para as telonas e está em cartaz nos cinemas. Becky está cheia de dívidas, mas precisa comprar uma echarpe verde, carésima. Mariana também tem essa sensação de precisar ter uma coisa que viu na vitrine.

Ela nunca deixou de pagar as contas para adquirir um produto, mas quando quer uma coisinha especial, economiza nas outras áreas. E começou cedo: chegou a gastar R$ 300 em uma calça aos 14 anos. Nunca se arrependeu de nada do que comprou, mesmo tendo uma coleção de quase cem pares de sapatos. “Sou bastante consumista, adoro fazer compras, ver novidades e ajudar as amigas, mas controlo bem meu dinheiro. Essa é a maior diferença entre eu e a Becky. De resto, somos idênticas!”

_consumismo saudável?
Uma coisa é precisar comprar roupas, afinal todo mundo precisa se vestir! Mas até que ponto o consumo é considerado saudável? De acordo com a psicanalista e filósofa Samanta Obadia, as mulheres estão mais vulneráveis ao consumismo, porque todo mês sofrem baixa de hormônios, o que acarreta maior instabilidade emocional, o que pode levar ao consumo desenfreado. “A mulher coloca-se mais frágil diante da mídia”, diz. Aí não há limite de cartão de crédito que segure!

Ainda de acordo com a psicanalista, as pessoas costumam consumir mais para suprir uma insatisfação que sentem diante da falta de sentido de vida. Elas preenchem-se de objetos a fim de iludirem seus sentidos, provocando assim a falsa sensação de completude. Nesses casos, o tratamento mais indicado é a terapia discursiva [psicanálise] associada à psiquiatria [tratando a compulsão].

O primeiro passo é aceitar o fato de que existe um problema. Será que você precisa mesmo de mais uma bolsa? Às vezes, são das coisas simples da vida que a gente precisa. E de vez em quando, de um sapato novo, que ninguém é de ferro! Afinal, sentir-se bonita é, sim, uma necessidade.

Matéria publicada na Revista Paradoxo